Quem trabalha com comunicação sabe que o expediente raramente termina quando o dia acaba. Ideias continuam em movimento, mensagens e notificações chegam e crises podem surgir a qualquer momento. Esse ritmo contínuo, marcado por urgência e alta responsabilidade impacta diretamente a saúde mental dos profissionais da área.
No Brasil, em âmbito geral, os impactos do trabalho na saúde mental já aparecem de forma significativa: segundo o Tribunal Superior do Trabalho, os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais ultrapassaram 470 mil casos em 2024, cenário que levou, em 2025, à atualização das normas de segurança do trabalho, passando a exigir que as organizações identifiquem e gerenciem riscos psicossociais. As projeções de 2025, mostram que a média mensal de afastamentos cresceu 13,7% em relação a 2024, podendo ter fechado o ano com a marca de meio milhão de afastamentos registrados (VocêRH, 2025).
A audiência pública realizada pelo Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional em 2024, discutiu sobre o agravamento das condições de saúde física e mental dos profissionais de comunicação, com fatores associados à pressão, forma como o trabalho é organizado e falta de normas. Pesquisas nacionais corroboram essa leitura ao indicar jornadas extensas, múltiplas demandas simultâneas, pressão contínua por resultados e hiperconexão como fatores recorrentes de adoecimento na área (Oliveira et al., 2024).
Esse não é um fenômeno isolado do Brasil, pesquisas internacionais conduzidas por entidades como a PRCA + CIPR 2023/2024, indicam que a sobrecarga de trabalho segue como um dos principais fatores de adoecimento entre profissionais de Relações Públicas. É nesse contexto que o Janeiro Branco amplia um debate necessário, onde refletir sobre saúde mental na comunicação é também refletir sobre ética, sustentabilidade do trabalho e responsabilidade institucional.
O profissional de comunicação: reconhecer sinais e buscar apoio
Na prática, muitos profissionais de comunicação convivem com alguns sinais recorrentes: cansaço constante, dificuldade de desconectar do trabalho, sensação de estar sempre atrasado, sono pouco reparador, irritabilidade, queda de concentração, perda de interesse por atividades que antes eram fonte de prazer. Em alguns casos, surgem sintomas físicos frequentemente associados ao estresse crônico, como dores de cabeça, tensão muscular, alterações de apetite ou de sono.
Reconhecer esses sinais é um primeiro passo importante. Outro passo é legitimar a busca de ajuda e isso pode incluir procurar atendimento psicológico ou psiquiátrico, conversar com pessoas de confiança, acessar serviços oferecidos pela própria instituição (quando existem) e, principalmente, abandonar a ideia de que “dar conta de tudo sozinho” é prova de competência profissional.
O papel das lideranças: criar espaços seguros
Quem lidera equipes de comunicação ocupa um lugar chave na conversa sobre saúde mental. Não apenas porque decide prazos e prioridades, mas porque ajuda a definir a cultura do dia a dia: o que é aceito, o que é esperado, o que é possível ou não.
Algumas atitudes fazem diferença concreta:
- Abrir espaço para conversas sinceras sobre sobrecarga;
- Estar atento a mudanças de comportamento na equipe;
- Revisar expectativas de disponibilidade fora do expediente;
- Negociar prazos com base realista na capacidade do time;
- Reconhecer o esforço, não apenas o resultado.
A forma como a liderança lida com carga de trabalho, limites e apoio emocional pode influenciar a decisão dos colaboradores de permanecer ou deixar a equipe.
Organizações: ambiente saudável é parte da estrutura
Organizações que atuam com comunicação precisam compreender a saúde mental como parte da própria estrutura organizacional, refletida em políticas, processos, cultura e práticas de gestão. Quando esse tema é incorporado de forma consistente, torna-se possível perceber:
- Definição mais clara de horários de trabalho e descanso;
- Revisão do volume de demandas em relação ao tamanho das equipes;
- Inclusão de riscos psicossociais na pauta de saúde e segurança;
- Oferta de canais de apoio (internos ou em parceria) para quem precisa de ajuda.
Ambientes que normalizam o excesso, a urgência constante e a falta de limites contribuem diretamente para a rotatividade de colaboradores. Já aqueles que assumem a saúde mental como parte da estratégia organizacional tendem a reter talentos, reduzir rotatividade e fortalecer relações internas e externas.
A atuação do CONFERP: ética, cuidado e visibilidade ao tema
Como Conselho que regula e orienta o exercício profissional em Relações Públicas, o Sistema CONFERP–CONRERPs tem o papel de trazer esse tema para o centro da conversa.
Esse olhar para a saúde mental se traduz em ações como:
- Reconhecer o impacto das condições de trabalho na prática de RP;
- Produzir e difundir conteúdos que ajudem a comunidade a identificar sinais de adoecimento e caminhos de cuidado;
- Estimular a reflexão e revisão de modelos de gestão que sobrecarregam profissionais e fragilizam relações;
- Apoiar iniciativas, eventos e debates sobre saúde mental.
Ao falar sobre a pauta, estamos reconhecendo que as condições de trabalho impactam diretamente o exercício ético e responsável da profissão, incluindo o cuidado com quem a exerce.
Saúde mental como base da qualidade das funções em comunicação
O Janeiro Branco é um convite para que os profissionais, liderança, organização e o CONFERP ampliem a discussão sobre a pauta da saúde mental, que é um pilar importante da própria qualidade da atuação profissional. Ao fortalecer essa conversa, damos um passo importante para que o futuro da comunicação e das Relações Públicas seja mais saudável, ético e sustentável.
Referências:
- Tribunal Superior do Trabalho: https://www.tst.jus.br/-/atenção-à-saúde-mental-cobra-novas-práticas-de-gestão-e-combate-a-ambientes-de-trabalho-tóxicos
- GOV – Ministério do Trabalho: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2024/Novembro/empresas-brasileiras-terao-que-avaliar-riscos-psicossociais-a-partir-de-2025
- Você RH: https://vocerh.abril.com.br/saude-mental/saude-mental-brasil-pode-registrar-meio-milhao-de-afastamentos-em-2025/
- Senado: Conselho de Comunicação Social: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/07/01/condicoes-de-saude-de-profissionais-da-comunicacao-se-agravam-aponta-debate
- PUC Minas: SAÚDE MENTAL DOS PROFISSIONAIS DE COMUNICAÇÃO: https://bib.pucminas.br/pergamumweb/download/D0D9B788-AAC3-4143-BB92-D190270AF259.pdf
- PRCA + CIPR 2023/2024: Mental Wellbeing Audit 23/24: https://www.prca.global/system/files/paragraphs/cw_file/2024-12/PRCA CIPR Mental Health Audit 2023-2024.pdf





